É um equívoco acreditar que o principal motivo que faz o paciente abusado procurar terapia seja o de romper o vínculo tóxico.
Há uma parte bem pesada que se culpa e se odeia por se manter violado por tanto tempo.
Juliana não se conformava em namorar alguém tão egoísta, manipulador e infiel. Foi surpreendida quando o terapeuta lhe perguntou sobre a parte não abusiva do seu namorado. Ao relatar seus momentos de generosidade, afeto e dedicação, se sentiu menos inadequada e defeituosa, enfraquecendo as vozes críticas que ruminavam em sua mente.
As coisas tendem a piorar quando o foco do terapeuta é ” salvar ” o paciente do abuso, o que dá a entender que ” ele não quer ser salvo “. PERCEBER A PARTE NÃO ABUSIVA não desvalida o abuso, apenas faz com que o paciente compreenda que não são os maus-tratos que o cativo, mas a esperança de que haverá melhora ( CRIANÇA ILUDIDA).
Investigando a infância, terapeuta e paciente constatam que os pais, além de nocivos, não obtinham as qualidades do namorado atual de Juliana, o que aumenta a resistência da criança vulnerável em aceitar o término.
Assim, foco da terapia muda de direção. Através do VÍNCULO, o terapeuta busca atender as necessidades da criança, desenvolvendo um modelo de cuidador generoso, empático, conectado, incapaz de abusar.
Só através dos cuidados incondicionais é que a criança, através da comparação pode, enfim, trocar o afago de arame farpado por um colo macio, quente de amor e disposto a acalentar o vazio e solidão da pobre criança.