O ESQUEMA DE ABUSO referente a homens pode surgir numa idade extremamente remota, mesmo sem uma vivência concreta de abuso.
Uma garotinha de 5 anos, por exemplo, pode ficar em alerta ao escutar noticiários sobre homens que matam ou estupram mulheres.
Ao crescer poderá ficar assustada com os conselhos dos cuidadores: “evite andar por lugares escuros… não deixe nenhum homem lhe tocar… qualquer coisa grite!”
O cérebro precisa distinguir entre o que oferece perigo a sobrevivência e o que é mais banal, para assim poupar energia, ou seja, é possível que a mente de uma mulher se desconecte de abusos “menores” como manipulações, negligências e traições , quando o cérebro está focando em estupro ou feminicídio.
O marido de Carla não a deixava em alerta, bem diferente dos homens que aparecem nos noticiários criminosos ou seriados policiais. As constantes traições e negligências cometidas eram interpretadas como “coisas de homem” ou “é o jeito dele”, para justificar a frieza emocional.
Muitas vezes, é através da terapia, com um semblante incomodado do terapeuta, que a mulher abusada se conecta pela primeira vez com as necessidades não atendidas de sua “garotinha”.
É através da compaixão do terapeuta que a paciente mulher consegue, de forma inédita, sentir dor de um abuso não físico e sentir a dor de uma ferida até então invisível.
A relação terapêutica faz com que muitas vezes a paciente mulher “pegue emprestado” a raiva do terapeuta e a utilize para protestar a dor da sua criança abusada e desenvolva um amor tão grande por ela ao ponto de se tornar uma “leoa” em prol da sua “cria”.