Clara foi uma garotinha com um temperamento amável e tímido. Dentro de uma família abusadora, onde o pai era autoritário e a mãe punitiva, a menina alternava entre se resignar aos abusos, obedecendo sem questionar ou simplesmente se desconectar, ” sair ” da cena abusiva, como um modo de não sentir dor.
O MODO RESIGNADOR e DESCONECTADO são atraentes para abusadores, principalmente sexuais, pela incapacidade da vítima em se defender.
A primeira experiência sexual de Clara foi aos 13 anos . Seu colega de escola insistiu em beijá-la. Mesmo não tendo a mínima atração pelo garoto, se viu acuada, exatamente como se sentia quando criança, o que a fez ceder a insistência para evitar maiores conflitos.
Percebendo a vulnerabilidade da garota, seu colega não exitou em passa a mão na genitália da menina. Nesse momento, Clara lembrou de como gostava de algodão doce, das férias no sítio do vovô e como aquele dia estava frio. A desconexão é um modo comum que abusados utilizam para não sentir a dor do abuso.
Hoje aos 29 anos e casada, o enfrentamento diante das investidas sexuais do marido se mantém. Através do protetor desligado e da resignação, já participou de sexo à três e posições sexuais que a machucam, mas sempre silenciando sua dor.
Ao ser questionada em terapia, simplesmente diz que não sabe o motivo de se submeter a tudo. Não externa raiva pelo marido, prefere se culpar ou minimizar afirmando que ele tem direitos por ser seu esposo.
O desafio clínico é confrontar o modo de enfrentamento, afirmando que não é a personalidade de Clara, mas uma estratégia desenvolvida para lidar com abusos. Imagens vivências da infância diante de situações abusivas, porém suportáveis de lembrar, ajudam, pois trazem à tona a criança abusada que precisava de proteção e de alguém que colocasse limites em seus cuidadores abusadores.
O terapeuta se conecta com a criança abusada. Cuida e a protege. Cria um muro na imagem para que seus cuidadores não se aproximem.
Aos poucos Clara, através dos exercícios de imagem e fotos de quando era criança, se conecta com a Clarinha abusada, sente compaixão por ela , chora, valida sua dor e finalmente consegue sentir raiva dos pais.
Essa raiva é generalizada para as pessoas abusadoras de sua vida: seus pais, marido e amigos. Passa a conseguir não apenas colocar limites, mas se afastar da maioria deles.
Hoje a pessoa mais importante para Clara é a Clarinha, o que a faz proteger sua criança de qualquer aproximação ameaçadora.