“Escutar do terapeuta que meu pai foi um monstro em ter me abusado sexualmente não doeu…eu já sabia, mas quando escutei que a parte boa que ele fez para mim foi uma farsa e uma manipulação, entrei em depressão profunda. É como se as pessoas fossem incapazes de me amar genuinamente.”

Júlia sofreu um grave abuso da pessoa mais importante da sua, o que gerou graves sequelas . Não confiava nos homens e detestava ser tocada.

Júlia sofreu um grave abuso da pessoa mais importante da sua, o que gerou graves sequelas . Não confiava nos homens e detestava ser tocada, porém havia algo perturbador, que tirava seu sono e a deixava confusa: a culpa em amar um pai tão abusivo.

As poucas amigas que sabiam dos abusos sofridos, afirmavam enfaticamente que Júlia romantizava a situação ao nutrir afeto por este monstro. A mãe não deixava ela pronunciar o nome do pai e repetia várias vezes que este deveria morrer.

Júlia não conseguia esquecer a única pessoa que a levava para escola e se preocupava com suas tarefas de casa. Da preocupação do genitor quando ela ficava triste e desamparada.

Toda essa confusão e ambiguidade de amor e ódio a fez buscar terapia.

O terapeuta, ainda nas primeiras sessões, escuta sem interromper a dor de Júlia. Demonstra compaixão e empatia, o que a deixa validada e compreendida.

Entretanto, quando enfatiza o afeto e o desejo de se comunicar ainda com esse pai , o terapeuta sai do modo compreensivo o modo para racional crítico : “Júlia, sei que é difícil escutar isso, mas seu pai é um monstro! Tudo de bom que ele fez foi uma forma de te seduzir e molestar”.

Claro que, a intenção do terapeuta foi protegê-la , mas não foi nada reparentalizador, pois mais uma vez, tirou dela a necessidade de se sentir amada sem culpa.

REPARENTALIZAR não é solucionar problemas, falar a verdade, ser sincero ou proteger. É OFERECER PARA O PACIENTE AQUILO QUE FALTOU EM SUA INFÂNCIA E QUE O MANTÉM EM CONFLITO CONSTANTE.

Júlia só queria escutar: “sim querida, seu pai tem um lado absurdamente tóxico, mas a parte saudável, foi capaz de te amar e não há nada de errado em se sentir feliz em ter sido amada.”

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Terapeuta cognitivo comportamental e atuo como psicológo ha 15 anos . Tenho experiência em dependência química e principalmente relacionamentos destrutivos.

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