Desde que nasceu, apresentava um temperamento calmo e meigo, sorria com facilidade, dizia sua avó. O prognóstico emocional da menina seria ótimo se não pertencesse a um ambiente hostil, privador de carinho, proteção e extremamente instável. O pai ,alcoolista, traía a mãe e esta ficava a maior parte do tempo acamada, deprimida, implorando que a morte chegasse. Clara nunca foi prioridade na família e com um temperamento tímido, internalizou que a realidade vivida seria normal, saudável, uma forma de amor.

A naturalização do abuso ou faz a criança se desconectar para não sentir dor ou a faz se culpar, acreditando ser ela a causadora da infelicidade dos pais. Em hipótese alguma, a criança desenvolve uma crítica em relação ao padrão das figuras mais importantes de sua vida.

Como geralmente acontece neste cenário, na fase adulta, Clara se sente atraída e conectada por homens instáveis, negligentes e agressivos. Os abusos sofridos em momento algum são motivos de raiva, pelo contrário, se tornam uma anestesia, como se tudo fosse sinônimo de um gesto de amor , assim como vivenciava na infância.

Através da terapia e dos comentários incisivos de suas amigas,Clara,rompendo o “modo desligado”, passa a sentir a dor dos maus tratos e começa a se culpar: “por que Roberto não consegue me amar? Por que não consigo ser suficiente para ele?”

Agora não está mais desconectada e sim deprimida, vulnerável e desamparada.

Na sessão, o terapeuta intervém e ressalta suas necessidades… o quanto ela merecia amor , atenção e cuidados e o tipo de relação que precisa ter para curar a dor do abuso.

Aos poucos a depressão de Clara vai sendo tratada, porém, uma fúria toma conta de si. Em um certo momento, olha para seu terapeuta de forma fulminante e diz: “você não me entende. Homens gentis e generosos me entendiam. Quanto mais Roberto me despreza mais o desejo”.

E assim, o terapeuta entende que ainda não é o momento dela romper seu relacionamento, pede desculpa, valida a dor e a decisão de Clara em continuar com Roberto mesmo de forma abusiva. E Clara neste instante? Mais calma, se sente conectada na terapia… por alguns minutos se sentiu bem com o acolhimento… por alguns segundos sentiu raiva da sua infância abusiva e pensou como seria se sentir amada…

Author

Terapeuta cognitivo comportamental e atuo como psicológo ha 15 anos . Tenho experiência em dependência química e principalmente relacionamentos destrutivos.

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