Cláudia era uma garota inteligente, extremamente amada e admirada por
amigos, professores e familiares, exceto em suas relações amorosas. A garota
colecionava imensas decepções amorosas, a queixa dos namorados frente a
seus comportamentos era uma só: “você é muito pegajosa, se continuar assim,
ninguém vai lhe suportar”.
O sentimento de não ser suficientemente boa para seus parceiros a fazia se
envergonhar, ter raiva de si. Impulsionada pelo desejo de mudança, a jovem
Cláudia estudou sobre amor próprio através da leitura de artigos e livros na
temática. Praticava técnica de relaxamento quando ficava ansiosa na relação.
Criou estratégias comportamentais, como telefonar para as amigas quando, na
verdade, queria recorrer aos namorados, fez esportes para se distrair, tomou
ansiolítico, porém tudo em vão. Até que conseguia, por algum tempo, não
incomodar, recorrer a todo instante a seus parceiros, mas chegava ao ponto
que não suportava, ficava irritada e carente… Acabava explodindo, exigindo
atenção, ameaçando o término da relação se não obtivesse o valor que deseja
experimentar. Todavia, logo após o ato demandante, o parceiro irritado pedia
um tempo, alegando se sentir sufocado e, mais uma vez, a jovem em prantos
sentia a dor agonizante da solidão, abandono, de não ser boa o bastante para
ser amada, sentindo-se culpada.
Então, decidiu fazer terapia como última esperança de tratar dos seus
comportamentos autoderrotistas. De cara, achou estranha a postura do
terapeuta quando, este, falou que ela poderia telefonar para ele, mandar
mensagens ou áudios sempre que precisasse. Pensou: “como vou trabalhar
minha carência, se o profissional estimula meus comportamentos carentes?”
Após criar um bom vínculo com o terapeuta se permitiu agir como se
comportava com seus parceiros amorosos. Ficou furiosa quando, no fim de
semana, mandou um áudio desesperador, duração de 5 minutos, e o terapeuta
não deu retorno…
Depois da fúria, o mesmo sentimento de culpa dominava suas emoções,
possivelmente o terapeuta iria criticá-la, chamá-la de mimada e talvez
suspender a terapia, afinal rompimentos de vínculos afetivos devido ao seu
comportamento pegajoso era habitual.
Para sua surpresa, o terapeuta pede desculpa por fazê-la se sentir inadequada,
mas esclarece que nem sempre poderá estar disponível, porém ressalta que
ela continua sendo importante, e que sua raiva não interfere no seu sentimento
por ela.
À medida que o processo terapêutico vai avançando, a infância da paciente vai
sendo revivida. Os pais trabalhavam muito e não tinham tempo para Cláudia.
Quando pedia atenção para o pai, era repreendida, pela mãe, e escutava o
quanto era egoísta por não perceber o cansaço dele.
Na terapia descobriu que seus direitos de carinho, amor, atenção e proteção
foram privados e que toda criança carece de necessidades básicas, assim
como parceiros amorosos também precisam.
O sentimento infantil em ser inconveniente foi transposto para relações adultas,
nas quais rapazes egoístas, indisponíveis afetivamente eram atraentes porque
a faziam reviver a infância de privações.
A relação terapeuta foi um marco na vida dela. À proporão que recebia
atenção, embora com limites, e não era punida, quando exagerava nas
demandas, fizeram com que ela se tornasse menos ansiosa, mais segura e
com menos necessidade em procurar o terapeuta por se sentir amada o
suficiente.
Cláudia compreendeu que o seu problema nunca foi o comportamento
pegajoso ou dependência emocional e sim procurar parceiros disfuncionais,
como seus pais, e implorar algo que é direito de toda criança e adulto: ser
especial!