A criança vem ao mundo extremamente frágil, indefesa e vulnerável, necessitando de um vínculo seguro para sobreviver, literalmente.
Ao se sentir ameaçada com a possibilidade de perder a atenção, cuidados e exclusividade do principal cuidador ( normalmente a mãe) entra em pânico. Experimenta cólera e, instintivamente cria estratégias para expulsar o ” inimigo “, seja chorando, gritando ou se debatendo… não importa se é o papai ou o vizinho e muito menos, se tudo isso irá causar uma má impressão, pois perder vínculos significa morte , desamparo e estar sozinha no mundo.
Alguns adultos na infância não experimentaram o ” delicioso gosto ” da exclusividade, nem tão pouco eram atendidos quando externavam seus ciúmes… mais tarde ” tiveram ” que inibir esse poderoso sentimento para evitar punição e retaliação das pessoas mais importantes de suas vidas.
Aquilo que não foi validado , compreendido e naturalizado na infância, vem à tona na fase adulta , só que desta vez com estratégias mais sofisticadas e destrutivas.
Roberto quando se sentia ameaçado no casamento, se tornava intimidador. Ameaçava sumir e levar os filhos, o que aterroriza sua esposa.
Raquel não fornecia o número de sua terapeuta para amigos…não queria perder o direito conquistado de exclusividade, algo raro na sua vida.
Se ciúmes é algo natural, então por que tratá-lo? Deve ser tratado quando as estratégias são nocivas…
Todavia, o sentimento de ciúmes não é disfuncional, nem patológico por ser inato e como defesa de sobrevivência.
O que se torna preocupante é o comportamento adotado, seja através da agressão, manipulação, chantagem , controle ou assassinato.
De fato, validar esse sentimento tão demonizado, compreendendo as dores e faltas infantis que há por trás do ciúme, parece não só deixar o ciumento mais regulado emocionalmente, mas REPARENTALIZADO quanto às negligências infantis.