Pessoas que passam muito tempo numa relação abusiva, utilizam o modo resignador como forma de evitar conflitos… o que, para o abusado, significa não perder o vínculo.
A questão é que, pontualmente, o resignado irá saturar do seu papel passivo e decidirá, como uma espécie de vingança ou talvez minimizar a dor dos seus esquemas ativados, se rebelar contra o dominador.
Juliana, cansada de ser negligenciada, rejeitada e humilhada, decide trair seu abusador para experimentar o raro sentimento de empoderamento.
Muito antes de entrar na relação abusiva Juliana já carregava em sua memória afetiva, maustratos e abusos diante de suas figuras parentais. Quando a pequena Juju ousava questionar as grosserias de seu pai, ele, de modo autoritário, a proibia de comer doces por um mês. Já sua mãe, mesmo diante de uma criança de 8 anos, ridicularizava suas roupas, chamando-a de “putinha mirim”.
Conscientemente todos estes absurdos são esquecidos, mas aquelas sádicas e perversas palavras e ações sofridas, continuarão sendo entranhadas em alguma parte do inconsciente.
E assim, após trair o marido abusador, vozes internas invadem a mente de Juliana, apelidando-a de puta e vulgar. São as vozes da sua mãe punitiva e competitiva, que sempre atormentam a pobre moça.
Numa perspectiva de relacionamento abusivo, pouco importa o comportamento infiel da moça ou suas consequências no casamento. O foco está na dor do abusado, em suas privações e manipulações sofridas ao longo da relação. A traição se torna apenas o modo desadaptativo para lidar com uma tristeza imensurável.
O terapeuta atuará em acolher aquela criança atormentada. Colocar as vozes dos pais perversos e punitivos em um lugar inacessível para que o adulto saudável do paciente se sinta seguro e potente para assim assumir o comando e cuidar de sua criança ferida.