A criança internaliza o certo e o errado através de recompensas e punições fornecidas pela cultura inserida e pelo cuidador.
Compreende que bagunçar o quarto é errado através do olhar triste , decepcionado ou furioso de figuras de referência, que podem acompanhar uma ação punitiva ou não.
Da mesma forma, a recompensa pode vim de um olhar generoso ou comportamento de afago, quando a mesma produz um bom comportamento ou uma expressão fofa, porém crianças que vivem em ambientes abusivos vivenciam experiências emocionais incoerentes em relação a seus pais.
Túlio quando mentia para mãe , acobertando a infidelidade do pai, recebia um abraço e aumento de mesada.
Clara ao brincar com suas amigas, apanhava da sua mãe possessiva que se sentia rejeitada.
Quando uma criança é premiada por suportar abusos, ao se tornar adulta pode internalizar o abuso como um gesto de amor.
Fernanda, aos 25 anos, namora um homem controlador. Quando ao chegar da faculdade liga imediatamente para ele, experimenta o prazer de um homem dócil e afetuoso. Quando o frustra ou o confronta, se sente abusada e humilhada.
Parece simples a alternativa de romper a relação, mas vale salientar que, o abusado adulto foi bombardeado uma vida inteira, fazendo com que o cérebro se adaptasse e tolerasse violências psicológicas.
Quando o terapeuta, por exemplo, diz que o namorado de Fernanda é abusivo, ela prontamente o defende, alegando o quanto dócil ele pode ser desde que ela faça a “coisa certa.”
Assim, o objetivo da terapia não é convencer o paciente sobre o abuso, mas oferecer estímulos afetivos correntes e diferentes dos aprendidos pelo mesmo ao longo da vida.
É importante enfatizar que a terapia não deve focar em recompensas / punições, mas em aceitação incondicional, validação das emoções e comportamentos incoerentes do paciente e por fim , dentro do que este poderá suportar e confrontar empaticamente. “Fernanda, desculpa falar assim do seu namorado, mas é muito difícil para mim tolerar o que ele faz com você”.