O que mais irritava Júlia não era seu relacionamento visto por todos a sua volta como abusivo, mas a incansável ” chatice ” dos amigos enfatizando a todo momento os abusos sofridos pela jovem.
Uma criança necessita de um responsável adulto que garanta sua sobrevivência e integridade física e mental.
Quando o cuidador se mostra negligente, violento e desconectado com as necessidades infantis, acarretará um sofrimento insuportável para a criança.
O modo protetor desligado surge como uma ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA INFANTIL. Para suportar o caos do abandono, privações básicas e abusos do ambiente, a criança simplesmente se desconecta emocionalmente, ficando ausente da situação como se não estivesse lá.
Na fase adulta, sobreviventes de abusos, usam estratégias porque o cérebro, automaticamente, já sabe o funcional em situações de pânico.
Trazer o abusado que utiliza o protetor desligado para a realidade é o mesmo que desejar que uma criança suporte a violência dos maus-tratos.
Para se proteger, o abusado adulto além de negar o abuso, direciona toda a raiva que deveria ter diante do abusador para os que confrontam sua relação disfuncional.
Vale salientar que, o terapeuta JAMAIS deverá confrontar ou desativar o modo protetor desligado se o sofrimento da realidade for insuportável para o paciente.
Enfatizo que o foco da terapia não é desativar este protetor diante do abusador, mas fazer o abusado não utilizá-lo na relação terapêutica, já que o terapeuta é alguém acolhedor o suficiente para cuidar das feridas do paciente.