A criança vítima de pais abusivos ” precisa ” criar um modo iludido para sobreviver ao trauma dos maus-tratos.
Pensar e idealizar que tem pais perfeitos, mesmo diante da punição e manipulação, tranquiliza a criança por alguns instantes, o que pode evitar crises de ansiedade e depressão profunda.
Entrar em contato com a realidade é insuportável porque a criança necessita dos cuidadores, tanto emocionalmente, quanto fisicamente.
Na fase adulta, quem escolhe amigos críticos, chefes autoritários e parceiros negligentes é a criança interior , ainda presa na ilusão de que aquelas figuras, semelhantes a seus cuidadores, lhes retribuição o que faltou na infância.
Abusados quando estão em crise , não devem ser confrontados em terapia sobre suas escolhas afetivas, justamente por estarem no modo criança desesperada, que ” prefere ” o abuso ao abandono.
A necessidade da criança desamparada é a aceitação incondicional, a validação da sua dor e respeito a sua escolha de talvez ficar na relação.
O terapeuta não tem a função de controlar e aconselhar o que o paciente deva fazer, mas sim orientar de acordo com suas limitações e lhe oferecer um vínculo seguro, onde a prioridade é ajudá-lo a não se sentir sozinho.
É o VÍNCULO SEGURO, após meses de terapia, que fará o paciente, gradativamente sair da completa ilusão para a ambivalência afetiva : “quero ficar com ele, mas ele me faz mal”.
Pacientes abusados têm como referência vínculos ansiosos, evitativos ou desorganizados, nunca previsíveis, estáveis e seguros.
Quando, através da relação terapêutica, o vínculo seguro é INTERNALIZADO, possivelmente, o paciente generaliza o estilo de apego com o terapeuta para outras relações e sua criança iludida, apesar da dor do luto, poderá se sentir também atraída por pessoas mais saudáveis, empíricas e conectadas.
No final não é empírica mas empática.