Marcela é una boa terapeuta, não só tecnicamente, mas principalmente pela capacidade em se conectar com seus pacientes.
Teve uma infância difícil, onde passou por todos os tipos de privação. Sua mãe sozinha cuidou de 5 filhos. Marcela internaliza que boas mães sacrificam suas vidas por seus filhos.
Fátima é uma paciente com transtorno borderline. Passou fome até os 2 anos, quando foi adotada. Seu pai desde então sempre ameaçava ” devolve-la ” ao orfanato toda vez que o frustava. Fátima tem estilo de apego desorganizado: aquele que abusa é o mesmo que cuida.
Ela ama seus filhos e jurou nunca fazer com as crianças as rejeições que sofreu . Meta cumprida até seus esquemas se ativarem…
Ao conhecer o intenso José, sentiu uma química jamais sentida. O desejo de José por ela, aliviava a dor da sua ” menina ” abusada.
Então José a chama para viver com ele em outra cidade , mas não quer ” cuidar dos filhos dos outros “. O pai punitivo e ameaçador que ela sempre teve é representado por José. Ela sente o abuso e experimenta a raiva de uma mãe saudável que prioriza suas crias e rompe a relação de imediato.
Entretanto a noite, uma dor esquemática a consome. Mesmo se sentindo muito culpada, procura José, deixa os filhos com uma irmã e repete com as crianças o abandono da sua infância.
A intervenção do psicólogo precisa estar à serviço do paciente, das suas necessidades e não da história de vida do terapeuta.
O abandono de Fátima, apesar de grave, não define seu caráter. Vale lembrar que, a rejeição da mãe é uma estratégia de enfrentamento ( esforço frenético para evitar o abandono) da sua criança e não do adulto.
Além do julgamento não ter efeito terapêutico, ainda provocará culpa que pode fazer o paciente se machucar ( alívio e punição).
Estar nesse momento difícil com o paciente, sem o julgar é reparador por não usar ameaças, julgamento e até abandono ( não vou lhe atender mais). Para Marcela, com todos as suas convicções, é um exercício a mais.
A DECISÃO FINAL SEMPRE É DO PACIENTE, estando em seu adulto saudável ou sua criança impulsiva.