Marta está em sua quinta terapia. Motivo: sua oitava relação abusiva. Diferente de alguns pacientes que já chegam ao consultório com a queixa e o desejo de romper a relação, ela parece desnorteada, sem saber o real motivo de estar ali naquele momento.
Pacientes vítimas de abusos graves ainda na infância, se despersonalizam e se desconectam como meio de sobreviver aos abusos. Se por um lado não sofrem, também não sentem prazer. Ficam vazios , sem alma.
Marta começa a melhorar quando simplesmente seu terapeuta passa a se importar com ela, ligando nos finais de semana para saber como está. Este vínculo afetivo ativa o outro lado da moeda: “se ele é tão bom comigo por que meus pais foram tão ruins”?
A ideia de que os pais foram os melhores que podiam ter sido dá lugar a “eles não podiam ter feito isso comigo, eu era uma menina”.
A paciente antes desligada passa a relembrar a infância de forma real, através de fotos , músicas e exercícios de imagem , mesmo que timidamente.
A gratidão discursada no modo racional dá vazão a criança abusada e revoltada, que quer se machucar para não sentir dor ( PROTETOR DESLIGADO).
O terapeuta, gentilmente, pede para o modo desligado sair de cena, agradece seus serviços, mas avisa que a pequena Marta já tem alguém que se importa com sua dor, que se conecta, valida seus sentimentos e sente raiva do que fizeram com a inofensiva garota.
A dor da criança abusada pode gerar uma conexão com o lado adulto, onde o desejo de cuidar da mesma, pode fazê-la perder completamente o interesse por parceiros abusadores e indisponíveis.
E o MODO PROTETOR DESLIGADO? Este continuará atuando, exceto quando a Martinha estiver num ambiente seguro, amparador e coberto de amor e mimos, assim como deveria ser para todas as crianças.