Pacientes com esquemas de abandono podem entrar em crise nas situações de rejeição, que podem ser reais ou distorcidas. Isto acontece porque quando eram crianças e se sentiam solitárias, uma das figuras parentais, pelo menos, não se conectava com suas necessidades, deixando-as carentes de carinho, proteção e cuidado. Lúcia, quando escutou do namorado que, ele, queria dar um tempo na relação a fez reviver o quanto era desprezada pelos seus pais e entrou em pânico. A reação emocional foi tão intensa que ela recorreu impulsivamente à medicação, como forma de anestesiar sua dor, culminando em um internamento.
Às vezes, a vida do paciente parece tão estável que, equivocadamente, o profissional pode não conseguir antecipar um problema que está prestes a explodir.
Pacientes borderlines, por exemplo, não possuem repertório comportamental eficiente para, numa situação de abandono, saberem como conduzir o processo, logo, precisam ser treinados a fim de aumentar a probabilidade de autoeficácia.
Como a maioria possui um adulto saudável, ainda muito fragilizado, é essencial que o terapeuta funcione como um alter ego e empreste seu polo saudável em contextos caóticos.
Uma das técnicas que gosto muito é, através de um cartão lembrete, escrever uma mensagem para a criança desesperada do paciente onde ele possa ler sempre que necessário. É como se o terapeuta estivesse com o paciente naquele exato momento, uma vez que esse cartão poderá ficar com ele em tempo integral. Algo como “eu sei que está doendo, já doeu outras vezes, mas vai passar. Não estás sozinho, podes recorrer a mim”. Essa técnica pode aliviar o desamparo.
Obviamente, temos que prever que nem sempre essa técnica funciona e criar um leque de estratégias que façam sentido para o paciente. Ser instruído passo a passo pode organizar o paciente, em situações de vulnerabilidade, considerando que um desconforto emocional muito intenso o impede de pensar com clareza. A autoinstrução pode ser: lave o rosto com água gelada para minimizar suas emoções “quentes”, use técnicas de respiração para diminuir a ansiedade, conte até dez para não agir com impulso, visualize-se num lugar seguro para experimentar conforto.
É importante o paciente saber que, naquele momento de emergência, não precisa ser tão saudável, pois pode liberar sua criança furiosa ou impulsiva desde que não o coloque em risco. Sugiro que o paciente escreva uma lista de todos os comportamentos disfuncionais que, no momento de abandono, queira executar e selecione o menos danoso. Mariana, ao se sentir negligenciada pelo marido, se sentiu tentada a traí-lo (criança impulsiva), mas ao colocar as consequências no papel, preferiu mandar um áudio para o terapeuta, xingando o marido de todos os palavrões possíveis (criança impulsiva sendo auxiliada pelo adulto saudável).Após a adrenalina, é comum o paciente “se desligar” devido à descarga de energia e depois recuperar o controle de si.
É fundamental ajudar o paciente a não se sentir culpado, nem pela raiva que experimentou nem pelo comportamento, afinal, foi o melhor que ele poderia fazer.
Para finalizar, todo paciente borderline precisa ter uma lista de pessoas que ele pode pedir ajuda, vez que nem sempre vai poder contar com o terapeuta. A ajuda do profissional, inclusive, também precisa ser limitada para que o paciente possa desenvolver uma autonomia que proporcione uma certa independência. Logo, psicoeducar a família e amigos sobre o que fazer numa situação de crise será de grande valia.